Mania de desdenhar da terra natal

Agora com a propagação das redes sociais, aqui e acolá nos deparamos com piauienses desdenhando do próprio Estado. E, às vezes, negando-o ou renegando-o! - “Aqui não temos orgulho de nada!”, exclamam para justificar atitudes absolutamente sem nexo. É preciso, então, dizer-lhes algumas verdades.

Pergunto: “Que orgulho de Pernambuco é esse?” - Que tem um Recife olhando somente para o próprio umbigo! Que, no geral, os olhos pernambucanos se fecham quando o foco é o interior do estado! Que orgulho é esse? Só muito recentemente o interior se tornou digno de destaque. Com raras exceções, o olhar que é lançado da capital em direção ao interior é marcado pelo desdém, pela arrogância.

Estudos mostram que o orgulho da classe média pernambucana não se estende com tanto vigor às classes subalternas. O trabalhador braçal, aquele que engorda as estatísticas da violência e péssimas condições de vida, ainda é tratado como escravo dos tempos de engenho. Basta perceber que, na grande maioria dos lares pernambucanos, a mucama "pau para toda obra" ainda existe, confinada ao quartinho-senzala e às regras da patroa. Basta um passeio ao parque da Jaqueira, nas manhãs de domingos, para vê-las aos montes, uniformizadas, cuidando dos sinhozinhos e das sinhazinhas.

Tanto apego às tradições e raízes parecem ter origem numa grande resistência à velocidade e mudanças da contemporaneidade. Ou talvez num desengano em relação ao futuro.

Parafraseando Ricardo Gondim, em “Sou do Ceará”, “Ser do Piauí” é mais do que nascer aqui, é saber saborear um “baião de dois”, uma “maria isabel”, uma “carne do sol”,... É chamar aqui, como lá no Ceará, cafezinho de “cafezim” e Antônio de “Toim”...

Tal como no Ceará, também aqui no Piauí faz-se de tudo para não comprar casa de frente para o sol. Porque o astro-rei não perdoa, é inclemente, ardido, feroz e cansativo. No Piauí, tal como no Ceará, quem não souber lidar com ele dura bem “poquim”...

No Piauí, tal como no Ceará, dormir de rede com lençol velho e cheiroso é coisa espetacular!

Ser do Piauí como ser do Ceará é ter orgulho de afirmar que pertence à terra de Da Costa e Silva e José de Alencar; de Lásaro do Piauí e de Patativa do Assaré; de João Cláudio e de Fagner; de Cláudio Pacheco e de Clóvis Bevilácqua; de Alberto Silva e de Virgílio Távora; de Fonseca Neto e de Capistrano de Abreu;...

Ser do Piauí como ser do Ceará não tem coisa mais bonita que assistir a um repente na Casa do Cantador ou na Praça do Ferreira...

No Piauí como no Ceará nuvens negras prenunciam bom tempo. E que em dia chuvoso ninguém quer sair pra se molhar...

Ser do Piauí com ser do Ceará é rir de tudo. E tudo virando piada. Porque os piauienses tal como os cearenses são antes de tudo fortes!

Assim, sou um eterno enamorado do meu berço... Orgulho-me do Piauí porque sou daqui. “A minha vida, sempre inquieta como o mar, / É de renúncia, sacrifício, desencanto: / Enquanto vão e vêm as ondas do meu pranto, / Estende-se o horizonte, além do meu olhar… / Na imensidade azul fico a cismar, enquanto, / A refletir o céu, vai-se acalmando o mar… / Acalma-se também minha dor, por encanto: / — Já cansei de sofrer! Vou agora sonhar… (Poema “Vou agora sonhar...”, de Da Costa e Silva)