O príncipe vitalício por * Dorrit Harazim

Charles cresceu como cobaia involuntária de uma monarquia que mesclou tradição,fantasia e celebridade

20/05/18 - 00h00

Com quatro décadas de atraso, Sua Alteza Real o Príncipe Charles parecia ter encontrado uma razão de ser: acompanhar Meghan Markle em pelo menos parte do caminho até o altar da Capela de São Jorge. Ele fora designado de emergência para a função devido à ausência inesperada do pai da noiva, submetido a uma cirurgia do outro lado do Atlântico.

O papel lhe cabia como uma luva: além de herdeiro do trono da Inglaterra, Charles soma a condição de pai do membro mais popular da família real depois de Elizabeth II — Harry, o noivo. Desavenças e distanciamento anteriores foram esquecidos. E Charles receberia dos britânicos, por fim e pelo menos durante a cerimônia, a aprovação e gratidão do povo que sempre lhe faltaram.

Mas até mesmo esse papel de ocasião viu-se ofuscado pela arrojada caminhada solo de Meghan rumo a seu novo destino — ela adentrou a capela livre e plena, acompanhada de si mesma. Rompimento perante um público planetário, o gesto pode ser interpretado como alforria da milenar tradição de toda noiva ser presenteada pelo pai a outro homem, como o bem mais valioso.

Charles nasceu para ser rei no pós-Segunda Guerra de 1948 e cresceu como cobaia involuntária de uma monarquia que mesclou tradição, fantasia e celebridade em sua adaptação ao mundo moderno. Sua infância e a adolescência foram instáveis. Era príncipe-herdeiro da geração que no resto do mundo queria estar em Woodstock, tinha uma mãe-rainha pragmática e distante, um pai de estampa nobre, e viveu bajulado por ofício ou interesse. Ele foi o primeiro membro da Casa de Windsor a receber uma instrução fora dos muros palacianos. Estudou Arqueologia e Antropologia em Cambridge, especializou-se em História. Não passou de aluno “talentoso”, e no jogo de polo em que membros da família real têm obrigação de se destacar, foi “esforçado”.

A biógrafa Sally Bedell Smith narra um episódio miúdo, porém ilustrativo, na sua mais recente obra, “Principe Charles — As paixões e paradoxos de uma vida improvável”. Charles tinha 8 anos e fora levado para almoçar na casa do idolatrado Lord Mountbatten, seu padrinho de batismo/tio preferido/mentor/conselheiro/herói. À mesa, Edwina Mountbatten ensinou o menino a não arrancar a haste dos morangos, pois precisaria deles para mergulhá-los em açúcar. Minutos depois, uma das filhas da anfitriã notou “que a pobre criança tentava reintroduzir nos morangos depenados todas as hastes que arrancara”. Achou a cena triste.

Foi poucos meses antes de completar 30 anos, numa cerimônia para formandos de sua alma mater, que Charles expôs com ingenuidade assombrosa a dimensão de seu vazio interior: “O grande problema de minha vida é que realmente não sei qual é o meu papel na vida”. Na festa dos 40, escreve a crítica literária Rosemary Hill na “London Review of Books”, Charles foi descrito como “desesperadoramente triste”, e a princesa Diana quase não lhe dirigia mais a palavra. Quando completou 50, a ex-mulher tornada mito tinha morrido em circunstâncias dramáticas, a exposição pública de seu relacionamento com Camilla Parker Bowles foi traumática e corroeu por uma década a tênue empatia nacional que o príncipe ainda gerava. Passou dos 60 com a mãe singrando de jubileu em jubileu, excedendo à rainha Vitória em longevidade no trono e arrastando-o atrás dela como o também mais longevo príncipe herdeiro da história.

Em novembro próximo, Charles completará 70 anos. Desempenhou 546 funções oficiais nos últimos 12 meses em seu interminável ensaio para ser rei, e parece ter conquistado o direito de viver mais feliz, mais afinado com um entorno em mutação. A nova nora, além de multirracial, americana, divorciada, atriz profissional, mulher independente três anos mais velha que Harry, teria insistido na assinatura de um acordo pré-nupcial separando seu patrimônio de US$ 7 milhões dos US$ 52 milhões atribuídos ao príncipe. O irmão, William, segundo na linha sucessória, se recusara a assinar acordo de separação de bens ao se casar com Kate Middleton.

Difícil saber se hoje Charles já sabe qual o papel final que o destino reserva para a sua vida. Regente, quando a rainha completar 95 anos de idade ou ficar viúva, e não tiver mais estamina para um chá toda quarta-feira com o (a) chefe de governo? Mas regente não é rei, assim como morangos sem hastes são incompletos.

*Dorrit Harazim é jornalista. Escreve às segundas-feiras no jornal O Globo