Elenco de 2018 não será definido antes de julho, por *Josias de Souza

 

 

 

*Josias de Souza- do Uol

 

É grande a movimentação atrás das cortinas da sucessão de 2018. Cresce o ruído das arrumações nos bastidores. Há certa curiosidade para saber como estarão as coisas quando o pano se abrir. Mas o excesso de figurantes e a prisão do protagonista emperraram o ensaio. Quem espera por um desfecho em maio desperdiça tempo. O elenco de 2018 só começará a ficar claro no início de julho. O acúmulo de dúvidas em cena restaurou uma velha máxima: em política, quem tem prazo não tem pressa. E o prazo para a realização das convenções partidárias que formalizarão a escolha dos candidatos vai de 20 de julho até 5 de agosto.

A trama é relativamente conhecida. A coisa se passa num país improvável, onde mais de duas dezenas de postulantes disputam o amor da República, que está traumatizada com o acúmulo de desilusões —dos quatro presidentes que escolheu desde a redemocratização, dois foram destituídos (Collor e Dilma) e um está na cadeia (Lula). O atual (Temer), empossado por imposição constitucional, teve de articular três conchavos (um no TSE e dois na Câmara) para evitar a queda e anestesiar até o final do mandato, em dezembro, dois processos por corrupção. Num cenário assim, a plateia receia confundir certos candidatos com candidatos certos.

No momento, a ebulição é maior em dois núcleos da peça: os representantes do conservadorismo enferrujado se acotovelam no porão das pesquisas de intenção de votos. A turma da esquerda órfã habita o mundo da Lua. O risco de caos e ascensão de Jair Bolsonaro —que muitos acreditam ser a mesma coisa— recomendam juízo. Mas no porão, onde o tucano Geraldo Alckmin tenta se firmar como alternativa mais viável, há excesso de cabeças e carência de miolos. No mundo da Lua, onde Ciro Gomes se oferece como melhor opção para o pós-Lula, observa-se a mesma carência de miolos, mas com uma cabeça só: a do próprio Lula.

Muitos falam sobre o desejo do conservadorismo de se juntar numa única candidatura ao centro. Mas quem melhor explica a confusão é o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Presidenciável do DEM, o deputado disse ao blog: ''Os dois campos mais organizados da política não conseguiram construir uma candidatura capaz de liderar as demais. Creio que esse quadro deve se manter até julho. No nosso campo, estão todos abaixo de dois dígitos nas pesquisas —1%, 2%, 5%. Quem tem mais é o Geraldo Alckmin, com 7%. Mas a taxa de rejeição dele é maior do que a de todo mundo. Ninguém tem condições de liderar uma unificação.” Frequentam esse núcleo, além de Alckmin e Maia: Alvaro Dias, Henrique Meirelles, Flávio Rocha, Paulo Rabelo de Castro…

Na outra ponta, o debate da autoproclamada esquerda passa pela carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Um pedaço do PT tenta empurrar o partido, desde logo, para o colo de Ciro Gomes, o candidato mais bem-posto nos cenários que excluem Lula. “Nem com reza brava”, reagiu Gleisi Hoffmann, presidente do PT e porta-voz das mensagens que fizeram do preso mais ilustre da Lava Jato uma espécie de candidato por correspondência. Depende de Lula, o missivista, a resolução do impasse. Por ora, ninguém imagina quando e em favor de quem ele usará seu sortilégio. Promoverá Fernando Haddad de poste municipal em poste federal? Vitaminará Ciro? Ou manterá sua candidatura ficcional?

Num canto pouco iluminado do palco, Marina Silva e Joaquim Barbosa, com boa reputação e uma coloração de pele igual à dos brasileiros pobres, descartam uma aliança que poderia surpreender o caciquismo. Preferem atuar separadamente, mesmo com o risco de se tornarem candidatos favoritos a fazer de um oligarca com mais tempo de propaganda na TV o próximo presidente do país.

Se a cortina de 2018 se abrisse agora, a plateia testemunharia uma cena cômica. Michel Temer, que na peça faz o papel de candidato de si mesmo, caminharia até a boca do palco, olharia para os lados, pediria a atenção do público e anunciaria: “Desisti de pleitear a reeleição. Eu apoiarei…” Antes de concluir a frase, Temer seria arrancado de cena. Geraldo Alckmin puxaria por um braço. Henrique Meirelles, pelo outro. Ambos em pânico com o risco de ser contaminado pelo apoiador radioativo.