Fim de linha?

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Preso, Lula terá dificuldades para indicar um plano B às eleições e para passar bastão do comando do PT

Leandro Prazeres e Aiuri Rebello Do UOL, em Brasília e em São Paulo
 
Nelson Almeida/AFP

Quatro anos depois do início da Operação Lava Jato, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi preso. Herói para uns, vilão para outros, Lula deverá passar os próximos dias, em uma sala especial na Polícia Federal no Paraná. Os efeitos da prisão do presidente mais popular da história recente do Brasil na sociedade ainda são incertos, mas um painel de três juristas, quatro cientistas políticos e três parlamentares do PT entrevistado pelo UOL tentou avaliar quais os impactos dessa prisão para “Lula político”, o homem que, mesmo condenado, mobiliza massas e lidera as pesquisas de intenção de voto para as eleições de 2018.

 

Jogo de xadrez

A prisão do ex-presidente Lula é um fenômeno tão complexo e cheio de nuances que os especialistas ouvidos pelo UOL se dividem sobre alguns dos efeitos práticos disso no curto e médio prazos.

Uma ala defende que Lula deverá “esticar a corda” ao máximo e evitar a “passagem de bastão” nas eleições de 2018. Outra ala, ao contrário, diz acreditar que a prisão fará com que o ex-presidente, finalmente, transfira a liderança que ele carrega desde que foi eleito presidente em 2002.

O jurista Wálter Maierovitch é do grupo que acha que Lula vai “esticar a corda”.

"O Lula está jogando xadrez enquanto os outros pré-candidatos à Presidência da República estão jogando damas."

Para Maierovitch, a cúpula do partido sabe que, por conta da Lei da Ficha Limpa e da condenação em segunda instância, a chance de Lula se efetivar como um candidato viável no dia da eleição é mínima. Não importa.

"Não me encanto com o PT faz muitos anos, desde o mensalão, e não acho que essa atitude seja uma prática saudável para a democracia brasileira, porque tende a aprofundar cisões e o desgaste das instituições. Mas sou obrigado a admitir que a estratégia eleitoral deles é clara e tem grandes chances de dar certo", afirma o jurista.

"Pelo que mostraram até agora, vão esticar a corda da candidatura de Lula até o final, de preferência até quando não der mais tempo de substituir a foto e nome dele na urna eletrônica. Conhecendo o eleitor brasileiro, o que tem mais chance de dar certo? Fazer um longo e incerto trabalho de transferência de votos do Lula para alguém ao longo de toda campanha ou mantê-lo como candidato, já que é líder nas pesquisas, até o último momento e aí tentar fazer uma transferência direta de votos, na base da desinformação?", indaga o jurista. 

De acordo com a pesquisa sobre intenção de voto mais recente divulgada pelo Datafolha, no 31 de janeiro de 2018, Lula lidera todos os cenários analisados para o primeiro turno, com entre 34% e 37% das intenções de votos.

Em segundo lugar está o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), que tem entre 16% e 18% das intenções de voto. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

Roberto Romano, professor de ética e filosofia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), concorda com Maierovitch. Ele opina que há mais um fator que "empurra" o PT para esse caminho: a falta de um nome nacional capaz de substituir Lula.

"O PT não possui nenhuma outra liderança de expressão nacional, apenas lideranças regionais", diz.

"O Lula é o único aglutinador entre diversos grupos diferentes dentro do partido. Sem ele, não há um projeto nacional nem unidade no PT. Assim, é natural que o partido não encontre outro caminho sem ele para esta eleição, mesmo sabendo que ele não vai poder ser o candidato no dia da votação”, afirma.

Do outro lado dessa “mesa”, o cientista político Alberto Carlos Almeida, autor dos livros “A Cabeça do Brasileiro” e “A Cabeça do Eleitor”, diz acreditar que a prisão de Lula vai acelerar o processo de “passagem de bastão” que o ex-presidente não conseguiu fazer completamente em 2011, quando deixou o poder.

Lula já cogitava "passar o bastão" muito antes de 2018, diz Almeida, mas diversas circunstâncias o impediram.

"O Lula não passou o bastão ainda porque não conseguiu. Mas, agora, até mesmo por conta da eleição, ele não deverá ter outra escolha. A princípio, o sucessor dele era o [ex-ministro da Casa Civil] José Dirceu, mas ele foi 'abatido' no mensalão. Depois, o sucessor seria [ex-ministro da Fazenda] Antonio Palocci, que também caiu. Lula tentou passar o bastão ainda para a [ex-presidente] Dilma, mas, como a gente viu, não deu certo", disse.

O cientista político e professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Cláudio Couto também afirma que Lula será "obrigado" a passar o bastão de olho nas eleições de 2018. "Agora, ele não tem escolha. Ele vai ter que indicar esse nome", disse.

Ele afirma, no entanto, que a pressa para que Lula "passe o bastão" coloca o ex-presidente e o PT em uma encruzilhada. Quem seria o sucessor ou sucessora de Lula em 2018?

Para Couto, essa resposta não é fácil nem óbvia.

"Quando você olha para o PT, percebe que o partido não formou essa liderança que pudesse suceder o Lula e conduzir o partido no futuro. Fora do PT, que outros nomes poderiam ser essa liderança? O [Guilherme] Boulos [pré-candidato à Presidência pelo PSOL]? Eu acho que não", diz.

Além de Boulos, com quem Lula mantém relação próxima, outra pessoa apontada como um possível sucessor é o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT).

Pesa contra ele, porém, o fato de ele ser pouco conhecido em todo o Brasil e a falta de um perfil mais "popular" como o do ex-presidente.

Outro nome cogitado para suceder Lula nas eleições de 2018 é o do ex-presidente é o ex-governador do Ceará, ex-ministro e pré-candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT).

Apesar de ter sido ministro de Lula, Ciro e o ex-presidente trocaram várias farpas recentemente, o que, em tese, dificultaria esse processo. Além disso, o nome de Ciro é visto com desconfiança por grande parte da militância do PT por ele não ser do partido.

Um petista próximo ao ex-presidente admitiu que o PT discute, internamente, a sucessão de Lula nas eleições de 2018. Para ele, essa passagem de bastão é “urgente e inevitável”.

Ele disse, no entanto, que o "plano B" a Lula não é discutido em público justamente porque, neste momento, o partido ainda está empenhado em livrar Lula da cadeia. O raciocínio é que discutir um "plano B" é "reconhecer uma derrota".

 

O Lula não passou o bastão ainda porque não conseguiu. Mas, agora, até mesmo por conta da eleição, ele não deverá ter outra escolha

Alberto Carlos Almeida, cientista político e consultor

 

Cabo eleitoral

Parte dos impactos que a prisão do ex-presidente Lula pode causar no meio político ainda é desconhecida, entretanto, a julgar pelos números das pesquisas, ele deverá continuar a ser um "cabo eleitoral" influente nas eleições de 2018.

Líder nos levantamentos de intenção de voto, Lula ainda parece manter parte da sua capacidade de transformar candidaturas competitivas, algo que deverá ser explorado, novamente, neste ano.

O cientista político Alberto Carlos Almeida diz que, ainda que preso, Lula continuará a ser um poderoso cabo eleitoral. 

"Não acredito nessa história de transferência de votos. Não há prova de que as pessoas votam em alguém apenas porque A ou B disseram que ele tem que fazer isso. O que o Lula faz, no entanto, é jogar luz sobre um candidato que pode não ser muito conhecido. Isso dá competitividade a essa pessoa", explica Almeida.

"Imagina um candidato pouco conhecido numa determinada região. De repente, o Lula aparece num vídeo apoiando esse candidato. Como o Lula é conhecido por quase todo mundo, esse candidato também ganha certa popularidade", diz.

A afirmação de Almeida encontra respaldo em pesquisa realizada pelo Datafolha em dezembro de 2017. Na época, 29% dos entrevistados afirmaram que votariam "com certeza" em um candidato apoiado por Lula. Além disso, outros 21% disseram que estariam "inclinados" a votar em um nome apontado por Lula.

Tudo isso a despeito de ele ter a segunda maior rejeição entre os nomes pesquisados: 39%.

O cientista político Cláudio Couto concorda com Almeida. Ele afirma, porém, que o poder de influência de Lula na campanha de 2018 vai depender da "narrativa" que for construída em torno da prisão de Lula.

"Se a narrativa for a de que Lula é vítima de perseguição, algo que a gente já vê acontecer, acredito que Lula vai continuar a ser uma figura política relevante. Acho que ele pode ter alguma capacidade de influenciar as eleições mesmo que esteja preso", diz.

"Se o Lula puder gravar vídeos apoiando candidatos, isso será um trunfo para quem tiver o seu apoio", explica o cientista político.

Um petista ouvido pelo UOL também apoia essa tese. Dentro do partido, disse ele, não se discute descolar a imagem dos principais candidatos do partido da de Lula. Pelo contrário, Lula deverá continuar a ser usado como principal "cabo eleitoral" do PT.

 

Se o Lula puder gravar vídeos apoiando candidatos, isso será um trunfo para quem tiver o seu apoio

Cláudio Couto, cientista político

Apoio não garante vitória

Tanto Almeida quanto Couto ponderam, no entanto, que o apoio de Lula não é garantia de que o candidato ou a candidata apoiada por ele vencerão as eleições. 

"As eleições são um fenômeno muito mais complexo que isso. Não basta ter apoio se o eleitor não entender que aquele candidato vai resolver os seus problemas. Já vimos isso em várias eleições em que o Lula deu o seu apoio, mas o candidato não conseguiu vencer", afirma. 

Couto concorda. "Esse apoio do Lula, essa chancela, é um trunfo, mas não é garantia de vitória. Não era garantia nem quando Lula estava com a popularidade alta e não é agora", explica. 

 

Condenado e preso, mas em campanha

Para o advogado Arthur Rollo, especialista em direito eleitoral, a estratégia de manter Lula candidato a despeito da prisão é juridicamente possível.

"Não há nada na legislação eleitoral ou penal que impeça um preso de fazer campanha, para si mesmo ou para outra pessoa", diz. "Vai depender da autorização do juiz que acompanha a execução penal, mas, se o pedido for bem fundamentado, não há motivo para ser negado."

Rollo explica que Lula poderia inclusive ser autorizado a sair da cadeia para gravar programas e mensagens eleitorais ou gravar da própria prisão.

"Em tese, ele pode até participar de atos de campanha como comícios, se for na cidade onde é cumprida a pena. Não simpatizo com isso, mas essa é a situação hoje e com certeza aumenta a instabilidade da nossa democracia."

Malco Camargos, professor da PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), também vê o PT adotando a estratégia de ir com Lula até o fim, mas diz acreditar que o risco para o partido é enorme.

"Essa estratégia faz sentido pressupondo que os prazos da Justiça serão morosos como sempre e as decisões tomadas sempre nos limites regimentais", diz.

"Temos visto que com Lula o tempo da Justiça tem sido sempre diferente, mais rápido do que o costume. Se aceleram tudo e pacificam a questão ainda longe do dia da votação, os petistas ficam com um plano no meio do caminho, sem tempo para fazer uma coisa nem outra", afirma. 

Para Roberto Romano, ainda há um outro risco: caso o PT insista até o fim, aposte em decisões favoráveis do STF e efetivamente ganhe, na Justiça e nas urnas, ainda assim Lula não será presidente. "Se eles forem até o fim, o Lula ganhar e conseguir na Justiça o direito de assumir, vai ter um golpe civil militar para impedir", avalia. 

 

Essa história não termina com a prisão do Lula. Ela começa aí. Porque não é apenas prender o Lula. Isso vai gerar habeas corpus, isso vai ter outros desdobramentos. A depender de como a história se desenvolver, o PT pode se fortalecer ou se enfraquecer

Alberto Carlos Almeida, cientista político

O que Lula já disse sobre sua condenação