A volta da palmatória, por *Leo Aversa

21/03/2018 4:30

Um método arcaico pode resolver o problema dos pais que não têm tempo, paciência ou disposição

Houve um tempo em que dar a mão à palmatória era algo bem mais doloroso do que uma expressão batida. Nas escolas valia o errou-levou, nada de banquinho da disciplina ou cantinho da reflexão, só palmada, reguada ou joelho no milho. Uma dureza. Qualquer bagunça ou resposta atravessada e a coisa ficava feia pro aluno. Mas o tempo passou e por sorte as escolas mudaram seus métodos, suas práticas, e o castigo físico ficou para trás. Virou artigo de museu, igual ao bom dia, o por favor e o obrigado.

A educação melhorou com o fim dessa crueldade anacrônica ?

Valentina vive atracada ao celular. Com sete anos já tem o seu próprio iPhone e acesso à internet e WhatsApp. É lá que ela passa o dia trocando fotos, áudios, vídeos com outras — quanta ingenuidade — crianças. No começo, os pais da Valentina eram contra, mas uma amiguinha ganhou o seu, e eles não queriam a Valentina traumatizada por não ter algo que uma amiguinha tem. A mãe, às vezes, pede para a filha largar um pouco o celular, aí a Valentina ameaça não gostar mais dela e a mãe, aterrorizada com essa possibilidade, pede desculpas e se finge de morta. Já o pai até pergunta o que ela anda compartilhando, mas basta a menina responder que não é nada demais que ele se dá por satisfeito e volta para os seus assuntos. A Valentina leva o celular para a escola e fica chateada quando ele é confiscado pela professora. Seus pais acham isso um absurdo — a professora proibir celular, não a Valentina tentar postar selfies durante a aula — e logo devolvem o aparelho para a menina. Quem essa professora pensa que é, reclamam indignados.

Enzo está sempre zoando as aulas. Ele tem dez anos, é um menino esperto e tem por hobby tocar o terror na escola. Um garoto adorável, segundo os seus próprios pais, um capeta mimado, segundo os colegas. Antes de o Enzo nascer, os pais dele tentaram um jardim de cactos e um aquário, mas ambos davam muito trabalho e foram abandonados. Resolveram então ter um filho porque na época isso era meio modinha entre os amigos. Ao descobrirem que criança dá ainda mais trabalho que cactos ou aquários, entregaram o pequeno Enzo para um batalhão de babás de dar inveja ao príncipe George. O Enzo, sempre esperto, logo percebeu que as babás não o contrariavam para não perder o emprego e começou a dar as ordens. Como os pais estão sempre trabalhando — para pagar o batalhão de babás — em casa é ele o rei. Na escola também quer mandar em tudo e acha que os professores são babás sem uniforme. Os pais, atarantados, estão esperando que o lançamento de algum app para educar filhos solucione o problema. A tecnologia vai resolver tudo, pensam conectados.

Talvez seja a hora de voltar para a palmatória e os castigos.

Não para crianças como o Enzo ou a Valentina, isso seria uma crueldade anacrônica.

Para os pais delas.

Deram um celular para uma criança pequena? Dez palmadas em cada. O filho não respeita professor? Pais ajoelhados no milho por meia hora.

Terceirizaram a educação do filho e ficam reclamando do comportamento dele? A tarde toda de chapéu de burro no canto da sala.

E a escola ainda pode cobrar dos pais um extra pela lição. Vai custar mais barato do que psicanalista pro Enzo, coach pra Valentina e autoajuda para todos.

* Leo Aversa é colunista de O Globo-21/03/2018